Qualquer coisa, grite.
Grite para a impunidade
Para o descaso
Para o desespero.
Grite para o moralismo,
para sua desonra
deslealdade.
Grite para a intolerância
Para o preconceito
Para a política.
Berre para a ignorância,
Para a corrupção
Para a lei do mais forte
Que apaga o grito.
Grite para os ditadores;
para a humilhação
Para a violência;
Para os que não gritam.
Grite para a polícia.
Grite para o ladrão.
Ladrão humilhado e feio
Selvagem, rouco,
já não grita mais.
Grite até esvair toda a voz
Arrancar o último fio sufocado
De uma garganta que não gritava
Até agora.
Grite pelos mortos
Em combate, em protesto
Grite pela segurança;
Grite por nossa virtude;
Pela juventude;
Pelo que poderia ser
Nossa pátria-amada
E a mãe-gentil.
Grite pelos que perderam;
Pelos que venceram a dor
A dor que dilacera
Rompe o ato, rasga a alma
Da derrota que não tiveram
Não tiveram por que não lutaram
Por medo de lutar em vão.
Grite pelos covardes;
Pelas crianças que esperam
Pelos pais que não voltarão.
Grite pela realidade;
Grite pela lealdade
Grite pela união.
Grite pelos que não gritam
Ou pelos que gritam,
mas não sabem como.
Grite pelos que protestam
Pelos que anseiam
Pelos que esperam
Pelos que já foram
Pelos que virão
Pra mudar ou não.
Grite pela democracia,
contra a demagogia,
grite em protesto e lute
Lute pela honra ao sangue
Sangue que é derramado
Nos gritos calados
Dos que ousam
Dos que profetam
Dos que enfrentam
Dos que sabem
Dos que sentem
Dos que desejam
Dos que gritam
Dos que não mais
gritarão.
[Fernanda Rios, 30.11.2007]
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
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